mudança de ventos
de prosa, arte e vida


Segunda-feira, Junho 29, 2009


entrelinha


as palavras vez em quando se oferecem aos meus olhos sem metáforas: tantos tons de azuis no céu os multiverdes das altas copas das árvores um amarelo súbito de folha e flor e o negrume do um galho semi-seco-quase-morto. aos rés do chão água que escorre. um sapo. um grilo. menino rindo. mendigo roto. às vezes sangue. um corpo de bicho. outro de gente. e derramando-se sobre tudo sobre todos uma imensa buganvília florida em grená.




Márcia Maia


MM, 11:40#

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Sexta-feira, Junho 05, 2009


márcia maia©



Entre bares e bem-te-vis


O apartamento não é meu. Não no papel, como se diz. E ao mesmo tempo, é meu por inteiro. Numa esquina movimentada da zona norte da cidade, quase uma ilha cercada de bares, clínicas, salões de beleza, docerias e uma solitária casa lotérica. E ainda sim, uma ilha. De amanheceres azuis e silenciosos. Onde o bem-te-vi canta sempre às cinco e quinze. E o vinvim, logo depois. Antes de os carros começarem a passar. O sol ilumina-o todo o dia e a lua, sem cerimônia, banha varanda, sala, quartos, camas. Tudo por conta das janelas vidro e madeira que se debruçam sobre o jardim e a rua, em toda a extensão de cada cômodo. Coisa (maravilhosa) de mil novecentos e antigamente.
O quarto dos filhos é também o do computador e da televisão. E o beliche, onde dormiam, é meu lugar oficial de ver tevê. Séries, filmes, umas poucas entrevistas, tênis e futebol. Adoro futebol.
O quarto da filha virou quarto de brincar das netas. Casinha da Mônica, estante de jogos e livros, gavetas com papéis, lápis e tintas. Além da mesinha cor-de-rosa, das duas cadeirinhas fixas e mais duas de balanço. Também cor de rosa, como convem a princesinhas.
O corredor é a minha biblioteca de poesia. Duas estantes exclusivas. As estantes da prosa moram no quarto das netas.
Saio para trabalhar cedinho e deixo a cama arrumada. Como na mesa da cozinha, devidamente posta. Não abro mão. Nada de comer em pé ou andando. E isto vale para as três refeições. O telefone tem bina. Só atendo quem quero. O que significa, os amigos. E adeus vendedores de plantão! O som é muito mais usado que a tevê. Como agora quando Rosemary Clooney canta Stormy Weather, combinando à perfeição com a chuva que me obriga a fechar as janelas.
O silêncio foge nas noites de jogo, quando os bares se enchem e os ânimos se inflamam. E no carnaval, ao passarem os blocos. São os sons das paixões e da vida.
Em pleno segundo andar, as copas das árvores, dos dois lados da rua, simulam alegremente uma floresta tropical. Vez por outra um beija-flor voeja sala ou quarto adentro. Um morcego enorme desenha o anoitecer em vôos rente à janela. Sob o sofá, mora uma lagartixa.
E eu vivo entre o aconchego e a correria do trabalho. Muito cansada, às vezes. Com pouca grana. Mas sem ter do que, de verdade, reclamar.



Márcia Maia


MM, 18:19#

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Sábado, Maio 09, 2009


márcia maia©

leticia, 4 anos e 8 meses, abril.09


Astronauta, não!


— Você vai ser o que quando crescer, Letícia?
— "Asquiteta".
— Oi, e você não queria ser engenheira ou médica?
— Também. Mas eu ainda não resolvi, vovó. Só não quero ser astronauta.
— Por que?
— Pra não ser engolida por um buraco negro.
— Buraco negro?!
— É. Ele engole tudo. Engole até as estrelas. Sabia não?



Márcia Maia


MM, 18:03#

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Sexta-feira, Maio 01, 2009


Fim de noite


Não, eu disse. Não é de ciúmes que falo. Tampouco de medo. Mas do tempo. Da tua imagem que aos poucos vai em mim se esgarçando à luz inconstante das estrelas. E do vazio crescente que ocupa, paulatina e progressivamente, o seu lugar. O dia amanhecia. O bar fechava. E ele, que mais uma vez, mudo, me olhava fingindo nada entender, disse apenas: bobagem, deixe disso. E me beijou — fundo — até de mim, eu me esquecer.



Márcia Maia


MM, 19:56#

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Sábado, Abril 25, 2009





25 de abril de 1974


A noite que há tanto se estendia, súbito, à beira Tejo, se foi dissipando. Há tanto emudecidas, as gentes se surpreendiam cantando. Primeiro manso, e então, a plenos pulmões. E da terra e das mãos de cada um, brotaram os cravos. Rubros cravos. Em toda a parte floriu a terra morta. Em toda a parte fez-se nova e eterna a primavera. E a Liberdade abriu seus braços sobre a terra, sobre o Tejo. E, por toda a Terra, fez ouvir a sua voz. E de longe, sobre o mar, nos acenava nos dizendo: é possível. E de longe, sobre o mar, todos nós, também cantávamos, também sorríamos. E sonhávamos com o dia em que os cravos — todos rubros — finalmente brotariam entre nós.



Márcia Maia


para todos nós, portugueses e brasileiros, que vivemos aquele dia, na certeza de que os cravos florirão sempre e que a noite e o medo, jamais retornarão. a vocês, meus amigos mais-que-queridos, do outro lado do mar, meu maior beijo. e meu carinho. sempre.


MM, 13:53#

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Sábado, Abril 04, 2009


A Carta


Agora que é de tarde e já é tarde para arrependimentos, pergunto-me em silêncio: quanto de mim se foi naquela tarde? Ônibus lotado, seis e meia, quase noite. Sem lua.
Onde estaria se tivesse cedido, largado casa e filhos e a mãe já velha, doente?
A mãe disse pra eu ir, é verdade. Que amor não se encontra de novo se deixa-se partir. Que amor corre sempre pra frente, como rio. E perde-se na vida.
Mas fiquei.
E agora, esta carta. Tanto tempo depois.
Caminho até a praça de onde partem os ônibus. (Pra mim, eles sempre partiram.) E dali ao cais, beira de mar bravio.
Novamente é tarde, seis e meia, quase noite. Sem lua. Azul denso. Maresia.
E ao surgir a primeira estrela, pequenina e minha, como tu dizias, deixo que a carta caia entre as ondas nas águas da noite-mar.
Sem abri-la.



Márcia Maia


MM, 01:03#

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Terça-feira, Fevereiro 24, 2009





De gâlinha!


Tá fantasiado de quê, Tiquinho?, perguntavam, rindo, o palhacinho e a ciganinha. De gâlinha!, respondia o indiozinho, que vira já muitas galinhas nos seus dois anos de vida, mas nenhum índio. E riam os três irmãos, felizes, sob o sol de Olinda, na manhã do seu primeiro carnaval. A vida ria com eles, cheia de promessas de alegria. Como decerto ri, a cada ano, ao ouvi-los, juntos, nas mesmas ladeiras, repetirem, em uníssono, pergunta e resposta, rindo a valer da brincadeira.



Márcia Maia






Para Tiago, Felipe e Maria, indiozinho, palhacinho e ciganinha. E para as princesas-borboletas, Letícia e Manuela, filhotas do palhacinho, uma no quinto e a outra no primeiro carnaval. No Eu Acho é Pouquinho, claro! Com todo o meu amor.


MM, 19:32#

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Sábado, Fevereiro 14, 2009


Paisagem na janela


Tenha paciência comigo, ele disse, pouco antes de adormecer no sofá, embriagado demais para o amor. E ela, que o amava mas não tinha o menor saco pra conversa de bêbado, tirou a roupa e estirou-se nua no ladrilho da varanda. Chovia fino. Uma nuvem escondera a lua. Deixou que a mão descesse até a vulva, abrindo os lábios e tocando o grelo, leve e ritmadamente. Masturbou-se longamente, mudando o ritmo, prolongando o prazer, adiando o gozo. E adormeceu sem perceber os dois adolescentes quase imberbes que, na janela do vizinho, a observavam, masturbando-se e gozando, repetidamente, com furor.



Márcia Maia


MM, 18:37#

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Domingo, Janeiro 25, 2009


magritte©



Meteorologia


: e embora tenha o dia, finalmente, amanhecido azul, uma nuvem se lhe persistia, pesada e cinza, sob as pálpebras, por trás dos olhos, deixando janeiro escuro e frio, com cara de junho, mesmo havendo retornado, lá fora, o verão.



Márcia Maia


MM, 18:48#

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Domingo, Janeiro 04, 2009


Como um dia de sol


Quando o telefone tocou, pensei que fosse novamente a voz querendo saber se era da casa de Aparício. Não era. Era ele. Desculpe, mas não aguentei a saudade, disse. Precisava, ao menos, ouvir sua voz. E eu muda, feito uma porta, do outro lado.
Fazia pouco mais de um mês que havíamos combinado nos separar. Depois de dois longos anos de idas e vindas. De tardes tórridas e noites solitárias. De encantamento e riso. De desencontro e medo. Tinha sido uma decisão pensada e doída, por trás das faces calmas, e do sorriso quase falso, esbanjando sensatez. Sem dramas. Sem ardentes despedidas. Sem lágrimas.
Eu retomara meu dia-a-dia, tentando reorganizar a vida de uma nova perspectiva. Ou melhor, de uma perspectiva anterior ao conhecê-lo. No início tinha sido duro. Muito duro. As lágrimas não derramadas à hora da despedida, jorraram em silêncio, nas duas ou três primeiras noites. Depois, foram secando paulatinamente. Afinal, fora melhor se separar assim, de comum acordo, numa boa, antes que vida nos roubasse a alegria, o bem-querer. Estava bem, agora. Alguma saudade, muita lembrança, uma sensação gostosa de amor vivido.
Alô, você ainda está aí? dizia a voz no telefone. Estou sim, respondi, a voz trêmula. Tem sido difícil, muito difícil, ficar sem lhe ver, sem lhe falar. Não pensei que me fosse doer tanto, acrescentou, deixando-me mais emudecida ainda. O telefone tremia em minha mão, meus olhos se enchiam de água, o coração batia agalopado. Eu sei, também não tem sido fácil pra mim, finalmente consegui dizer. E rimos, os dois, sem ter porquê. Talvez para evitar o clima de melodrama. Você viaja quando? perguntei. Daqui a umas duas semanas. Sem data certa, ainda. Aviso quando souber. Certo, disse eu, a voz novamente firme. Olha, sei que a gente tinha combinado não se ver, mas sinto muito a sua falta. Quer voltar atrás?
Não, pensei, eu não queria. Não naquele momento. Não daquele jeito sobressaltado e antigo. Não agora quando começava a me reencontrar.
Não sei, respondi. Não sei. É muito cedo pra pensar nisso. Desculpe. E um silêncio de séculos se fez do outro lado da linha. Eu sei, você tem razão, me deixei levar pela saudade. Deixe-me dizer só mais uma coisa, pediu. Eu te amo. Te amo muito, acredite. Eu sei. Acredito. Também amo muito você, falei. E desligamos.
Na tarde, subitamente suspensa e azul, fez-se um silêncio de picos nevados. Rompido, apenas, pela voz de Edu cantando, na vitrola, os versos de Vinícius: " e essa beleza do amor, que foi tão nosso e me deixa tão só, eu não quero perder, não quero enganar, não devo trair, porque tu foste pra mim, meu amor, como um dia de sol."




Márcia Maia


MM, 10:19#

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Quinta-feira, Janeiro 01, 2009


Feliz ano todo, meus amigos!



And, please, stand by me. ;))


MM, 02:26#

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Sábado, Dezembro 27, 2008



Clarice


Toda uma vida e apenas três palavras. Dissera acácia, ao adolescer e apaixonar-se por um Artur que tantos criam imaginário. E então, antúrio, ao ser por ele brutalmente violada. Anos depois, disse nenúfar. Três dias antes de afogar-se onde nunca houvera água.



Márcia Maia


MM, 08:46#

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Domingo, Dezembro 21, 2008


Uma noite feliz


Sentada à mesa da cozinha, ela pensava. Precisava preparar o peru para a ceia. Estariam todos à sua espera ( e a dele, o peru ), logo mais. Mas havia o cansaço. E uma imensa vontade de ficar. Abriu a garrafa de espumante italiano, há meses na geladeira. Bebeu devagar. Tomou um banho. E adormeceu na rede da varanda. Só e feliz. Na noite de natal.



Márcia Maia


Para todos vocês, meus amigos queridos, estejam onde estiverem, o melhor dos natais. E meu beijo.


MM, 21:09#

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Quinta-feira, Dezembro 11, 2008


tina modotti



entrelinha


as malhas do tempo se emaranham e se confundem. da memória nem um ínfimo por um átimo se retém. tudo é névoa travestida de vazio. vãs palavras que de ausência desafirmam-se. maré que em círculo represada se estagna. e enquanto a mente decompõe-se mais e mais a cada dia, o corpo insiste em manter-se quase hígido. o mens sana in corporis sano por inteiro desagrega-se. e o que vê-se além da dor de quem assiste é um invólucro esvaziado um corpo de luz desabitado. a mãe faz oitenta anos. e de si nada resta que uma sombra. um espectro do esplendor que um dia foi. ressequida flor que em avessa primavera à morte nega-se. e o amor.



Márcia Maia


MM, 08:07#

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Sexta-feira, Dezembro 05, 2008


koldo badillo©



Trastevere


Quando a barra pesa, e aqui, quase sempre pesa, sonho. Faço de conta que os barracos coloridos não ficam na favela. Que a bicicleta na porta não é do dono do pedaço, de quem não se pode dizer o nome. E que a feira, cheia de verdura podre e carne clandestina de cavalo e cachorro, vende flores e é chique. Como em um filme que vi na tevê. Uma história de uma princesa que quer ser moça comum. E se perde perto da tal feira. Com um jornalista. Depois, passeia, na garupa da lambreta dele, por uma cidade linda. Roma, o nome da cidade.
Tem um lugar, lá no filme, que parece aqui.(Menos nos tiros e na pobreza.) Umas casas meio-velhas, coloridas. Roupa estendida no varal. Flor na janela. Cachorro latindo. Gente reclamando, falando alto, rindo, se agarrando no meio da rua. Um tal de Trastevere, eu acho. Não sei se é assim que se escreve. Pois é com esse tal de Trastevere que sonho em dias assim. Quando o terror se espalha. E a gente nem pode respirar, com medo de fazer barulho. Porque, se ele ou os amigos dele escutarem, podem se zangar e atirar pra matar. Ou botar a gente pra fora daqui. Para sempre.



Márcia Maia


MM, 22:59#

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Sábado, Novembro 29, 2008


Cicatriz


; e por mais que refizessem gestos e caminhos e todas as palavras reinventassem, um ponto opaco persistia na imensidão daquele azul. A olhos leigos, invisível. Aos dela, infelizmente, não.



Márcia Maia


MM, 04:14#

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Sexta-feira, Novembro 21, 2008


Longe do Paraíso


Vagando à noite, sob a luz esverdeada dos letreiros de néon, sentia frio. Chovera. Nas esquinas empoçadas, nos vidros das vitrines mal iluminadas, se via refletida e não se reconhecia. Uma saudade de árvores lhe vazava o peito. Pensou em se jogar do viaduto. Demasiado urbano. Pensou em se jogar no rio. Mas não era rio aquela água escura e fétida cheirando a esgoto e desespero. Pensou em tantas saídas. Mas se escusou de entrar naquele teatro, que se dizia mágico, e se oferecia aos raros e aos loucos. Não, não era a hora de mostrar-se a si inteira e nua. Não agora. Não ainda.



Márcia Maia


MM, 20:39#

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Sábado, Novembro 15, 2008


erótica


por sob as vestes escuras por sob os olhos velados pulsa a ânsia de te me tomar-te e à tua revelia alimenta o fogo que te-me consome onde te-me ardes onde tanto me desejas e enredado em mistérios e segredos todos teus te-me tolhes te-me afastas te-me negas ad infinitum per omnia saecula saeculorum  sem amém



Márcia Maia


MM, 06:14#

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Terça-feira, Novembro 04, 2008


Márcia Maia©



Maremoto


Naqueles dias, deu de achar que o mar avançava. Mais e mais. Não que houvesse um motivo real para isso. Apenas acontecia. E por vezes, sentia como se não pudesse respirar. Como se os pulmões se enchessem de líquido. Salgado e amargo. Grosso. Mas, não fora sempre assim.
Vivera desde sempre, naquela ilha. Desde antes de propriamente nascer. Toda a sua família ali nascia e ali morria. Ano após ano. A vida seguia seu rumo. Previsível. Plácida. Quase feliz.
Até aquele dia. De chuva e mar revolto. Quando ele apareceu. Um ano atrás. E nada fora igual desde então. Nem ao menos era belo. Tinha uns olhos de noite e frio. De mar profundo. Cavernas. E mãos. Jamais esqueceria aquelas mãos.
Pouco ficou. Partiu como chegara. Sem palavras. Pleno de olhares. Na hora misteriosa que divide o amanhecer da madrugada. Maré alta. Mar calmo de partida. Corpo doendo de saudade. Do amor. De outras mãos. As suas.
Desde então, o mar avança a cada dia. Nos seus olhos de espera. Olhos dela, que ficou. Ninguém notou a mudança. Ninguém percebeu o azul mais pálido no céu e um quê de verde-cinza se espalhando mar afora. Nem a fase minguante da areia. Na praia. Ninguém. Exceto a avó. Velha como a mais alta palmeira. Que a viu perder-se meio às ondas. Um instante antes de o mar invadir a ilha. Cobri-la. Um segundo antes de tudo tornar-se passado.



Márcia Maia


MM, 07:38#

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Sexta-feira, Outubro 31, 2008


de vendaval e calmaria


a memória dos olhares se adelgaça e a imagem dos que foram tremeluzem quase como holografias. não há velas que de novo as alumiem. a saudade entretanto mantém viva a sua essência. a madrugada faz-se ponte de silêncios e sentires. as imagens escondidas nos espelhos se entreolham e entrehabitam. os pássaros de pedra ousam vôos lá na sala. enquanto o vento se alterna em vendaval e calmaria.



Márcia Maia


este blog faz cinco anos hoje. tanto vento bom e fértil soprou por aqui. muitos trouxe. levou alguns, sem ensinar como preencher-lhes o vazio. para vocês é esse post, júlio, nela e li, com saudade. e para você, eduardo, que me ensinou que o mar-oceano não passa de um riachinho.

a todos os que aqui vêm, vieram e ainda virão, o meu muito obrigada. e o meu carinho.


ah, ia esquecendo: tem aniversário também aqui.


MM, 05:49#

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