Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
Revolução
Abriu a janela. Trigésimo andar. O vento varreu os papéis mesa afora. Ligou o som. Rock pesado. Sepultura. Exultou! Papéis, quadros, tudo voava no escritório mais impessoal e caro da cidade. Próprio à sua posição de alto executivo. Maduro e rico. Dançou até a exaustão. E adormeceu. Com a mesma sensação que tinha na infância. Quando roubava fruta do quintal do vizinho. E beijava, escondido, a filha do jardineiro. Mas isso fora há tanto tempo, que já não lembrava mais.
Márcia Maia
MM, 22:56#
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Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
O ninho
Acordou com uma sensação aguda de vazio. Uma solidão súbita invadira a casa, possivelmente entre as duas e as três da madrugada, e a fitava comodamente sentada à beira da cama. Sentiu-se incomodada, violada em sua intimidade, embora fossem , ela e a solidão, de tão íntimas, quase irmãs. A solidão sorriu como se lesse o seu pensamento. E seguiu fitando-a, muda.
Ela nada disse. Fez que não a vira. Levantou-se, pôs o CD de sempre, escovou os dentes, abriu a porta da varanda e a janela da cozinha, e retornou ao quarto para ler o jornal, como fazia todos os dias ao acordar. Mas não conseguiu. A solidão se deitara do lado esquerdo da cama e parecia imiscuir-se nos seus olhos, olhando-a tanto de dentro para de fora como de fora para dentro.
Dobrou o jornal. Fechou os olhos. Não entendia o que lhe estava acontecendo. Seus dias eram tranqüilos, a vida corria em paz e leve. O amor, ou que nome dessem àquilo que viviam, resplendia recém-consagrado, reafirmado, de corpo e alma vivido, pleno. Por que agora essa invasão impressentida?
Foi então que lembrou do ninho pendurado no pinheiro. Há quase um mês estava ali, parcialmente desfeito. E não caía. Pela primeira vez o haviam visto, à luz da lua cheia, na noite do amor, prestes a despencar, a desfazer-se. Mas não. Seguia, cai-não-cai, oscilando ao vento, numa ode à efemeridade da vida. À insustentável leveza do ser. Contrariando o tudo que é sólido desmancha no ar.
Abriu os olhos. A seu lado a solidão ressonava. Devia ter sido longa, a madrugada de vigília. Trocou o CD e o trompete de Chet derramou almost blue na penumbra azulada dos lençóis. Descobriu que aos poucos, a sensação passava. E como o relógio marcasse ainda cinco e meia, adormeceu. Lado-a-lado à solidão. Apascentada.
Márcia Maia
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
Folhetim
Sexta-feira. Carnaval. Meio-dia e meia. Ao telefone, ele diz que tudo foi lindo e deve ser guardado como um pequeno tesouro. Para sempre. No seu coração. Dele. Que não suportaria sofrer de novo. Ela ri. Disfarça o nó na garganta. Conversa mais um pouco. E desliga. Com um beijo. Foram tantos, pensa, olhando a fantasia sobre a cama. E não sobreviveram a um único carnaval.
Márcia Maia
MM, 08:47#
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