Os unicórnios corriam lado a lado com os leões. Os cães latiam. O tigre, entretanto, velava o canteiro de orquídeas, onde ela com a insônia se debatia, pronto a abocanhar seu coração.
Sonhava com cavaleiros. Andantes. Armaduras de prata ao luar. Galantes. E limpos. Essencialmente limpos. Olhos negros. Pele morena, de preferência. Não era muito chegada a louros e olhos azuis. E aí começava o problema de seus sonhos. A falta de coerência.
Onde, na corte do rei Arthur ou na Bretanha de Ivanhoé, caberiam cavaleiros morenos? Longos cabelos negros. Nem tão lisos assim. Barbas cerradas. Grandes e profundos olhos negros. Mãos de longos dedos. Fortes. E, ainda por cima, limpos! Estes povoavam sua imaginação e a deixavam à beira de um ataque de nervos. De tesão.
Mas, com essa descrição, jamais seriam seus cavaleiros, os heróis. Estavam mais para bandidos, infiéis, ladrões. O que poderia ser facilmente constatado em qualquer filme de quinta ou numa mera revista em quadrinhos.
E ela, a princesa encastelada, como poderia amá-los?
Passava tardes inteiras sonhando em busca de uma solução. E nada encontrava que se adequasse ao espírito dos romances e filmes dos tempos de adolescente.
Tentava se imaginar nos braços de um deus louro, barba fininha, cílios dourados emoldurando olhos azuis, límpidos como a água do mar. Ou o céu da tarde. Tão bravo e gentil. E babaca, pensava. Não lhe inspirava em nada.O menor estremecimento. A mais remota emoção.
Desistiu. Decidiu subverter o enredo. E passou a dedicar-se, com afinco, às aventuras com os, digamos, forasteiros. Nos seus sonhos, era raptada e o mais alto, mais moreno, de maiores e mais profundos olhos negros, barba mais cerrada, caía de paixão por ela. Imaginava tórridas cenas, mais para Nove e Meia Semanas de Amor que para Camelot. E era feliz. Atrapalhada e deliciosamente feliz, na mais louca e incongruente aventura. Onde a princesa morria de tesão pelo galã, que não era nem louro, nem herói. E onde os louros cavaleiros, como bem lhes cabia, lutavam até a morte pra libertá-la. Mas, para a glória eterna de seus nomes, convenientemente, morriam.
O que foi não é mais que aquarela desbotada na parede da alma. Vez em quando encanta. Vez em quando dói. Na maior parte do tempo, entretanto, o que fora tudo, hoje é um imenso e etéreo quase nada.
Gostava de três coisas na vida: cinema mudo, fazer amor e sorvete de graviola. Com chocolate. E dele, que ria quando a ouvia falar assim. E partira. Reencontraram-se por acaso, anos depois. No cinema. Revendo Chaplin. Transaram na última fila, como adolescentes. Sem pudor. E à saída, embora fosse outono e chovesse, tomaram sorvete. Graviola com chocolate, ele pediu. O chocolate embaixo, acrescentou. Ela riu. Soube que era simples ser feliz. E nunca esqueceu.
Final de Wimbledon 2008: Federer e Nadal. Diante da tv, Felipe tenta convencer Letícia a desistir de assistir desenho e ver o jogo. Tio Legal assiste, querida. Rebeca joga. Vamos ver? Mas eu não jogo, retruca ela, irredutível. Mas pode jogar quando crescer. Nadal começou a jogar quando era do seu tamanho. Foi? diz ela. E quem joga ganha muito dinheiro e pode comprar tudo o que quiser. Tá bom, tá bom. Vamos ver.
Manhã seguinte, encontram o vizinho de carro novo. Que carro bonito! Compra um desse pra gente, papai. É muito caro, filha. Papai não tem dinheiro. E ela, sem um segundo sequer de hesitação: joga aquele jogo!
Sofria de uma doença rara. A Síndrome do Inverso-Espelho. Qualquer mínimo sorriso, palavra, gesto, fazia-o acreditar que era amado. Sem o ser. Por outro lado, quase nunca enxergava quem de fato o queria. Vivia entre o inferno e o paraíso. Sem meio-termo possível. Um humano pêndulo afetivo. Indo e vindo. Vindo e indo. Um dia acordou curado. Desabou. Não conseguiu olhar-se no espelho. À mesa, o rancor surdo da família reunida brilhava como o sol do meio-dia. Na rua, nenhum sorriso. E a voz dela, ao telefone, dura como pedra. Nada mudara. E nada fazia sentido. Então vazou os olhos e os ouvidos. E viveu feliz. Para sempre.
adágio para violoncelo sapos grilos e ausência de voz
esse silêncio interior essa afasia essa coisa inexplicada interposta entre as sinapses impedindo o pensamento de fluir como se chama? essa mudez que se me estende até as pontas dos dedos e mais além e que atropela e inviabiliza o poema a que se deve? como se atreve? e esse frio que penetra pelas frestas da janela e o coaxar desses sapos em jardim inexistente e esses grilos e esses pássaros noturnos a mentir que inda virão de onde vêm? meio ao asfalto da cidade o que serão? mentiras de estrelas? sereias perdidas descrentes de mar em noite sem lua? e o som do violoncelo que me envolve e envolve a sala e envolve a noite e envolve a cama e envolve a vida será música ou só ausência ou só saudade ou só descrença ou nada mais que o nada mais que resta numa noite de solstício entre a insônia e o simples ato de entregar-se e esquecer-se e dormir?
Eram assim, ia dizer como unha e carne, mas lembrou que unha e carne não falam, como voz e língua, como frevo e passo, como pôr-de-sol e alvoroço de passarinhos em fim de tarde. Aliás, era exatamente ao final da tarde que invariavelmente enveredavam em conversas e em risos sem fim. Mais ainda em janeiro. Culpa do sol, do ano recém-nascido, dos primeiros acordes dos blocos ensaiando o vindouro carnaval, culpa do aniversário. E tarde a tarde, de janeiro a janeiro, reinventavam a vida, redescobriam o mundo e eram felizes. Mas esgarçou-se o tempo entre os janeiros, e as tardes paulatinamente emudeceram, como se todos os pássaros emigrassem. E agora que era novamente janeiro e aniversário, telefone na mão, antes que do outro lado ele atendessem, ela subitamente percebeu que se lhe haviam secado todas as palavras. E desligou. Apesar de ser janeiro. Apesar de ser aniversário.
A torneira sem água. O telefone mudo, mas com linha. Segunda-feira de contas a pagar. A Lua em Escorpião. A falta de paciência. O mal-estar. Uma canseira. E a sensação de estar overeacting. Superestimando. Fazendo drama, assim, em bom e claro português. Pra completar, Nana canta: ah, a solidão vai acabar comigo... Ah, saco! Bem-feito! Quem mandou se apaixonar?
Derrapou e caiu. Um segundo de desatenção, e estava no chão. A droga do tênis novo, todo cheio de riquififfis, salamaleques, amortecedores de gel e silicone, não era à prova de chuva. Menos ainda de calçada esburacada, folhas caídas e lodo. Deveria vir com um aviso: impróprio para uso no outono/inverno. E agora, a perna doía, a calça cheia de lama, por pouco não se rasgara, a mão arranhada, sangrando, a sombrinha quebrada. E três prestações da porra do tênis ainda por pagar. Oh, vida!
sem passeio. sem herói. sem piano sob a escada. sem sapato cor de caramelo. sem tarde. sem grená no jasmineiro. sem poesia. sem praça. você tão diverso tão longe. o que havia esgarçando-se. definitivamente. sem mim.
Enquanto o filho caçula, doente e pródigo, dorme, ela vela. Não fia ou tece. Espreita o céu azul da tarde, pela janela aberta, e lê o jornal do dia. Mesmo assim, em seu velho vestido de algodão bordado, deitada sobre a cama, distraída, daria um belo quadro de Vermeer. Não fossem de prata seus brincos.
O dia inteiro de febre:39,5°C. Tomou remédio, minha mãe? pergunta a filha. E ela, a mãe, mais morta que viva, com cada mínimo ossinho doendo, responde que ainda não, que está deixando cozinhar os bichos.
- Cozinhar quem?!
- Os bichos.
- Está delirando, minha mãe?
- Não, meu bem. Explico. Sempre digo às mães dos meus pacientes que a febre é uma forma de o corpo matar os germes, os bichos, como a gente faz quando ferve o leite. E que dando o remédio muito cedo, antes de 38°C, não se deixa o corpo cozinhar os bichos e se prolonga a doença.
Só você mesmo, minha mãe! Com 39,5°C os bichos já cozinharam bastante: trate de tomar o remédio!, retruca a filha, comprimido de Dipirona numa mão, copo d'água na outra.
Bem mais tarde, febre de volta, o corpo inteiro doendo, toca o telefone:
- Ei, que é que você tem? Onde já se viu médico adoecer?
A voz amiga e distante a faz rir. E pelos próximos quinze minutos, a conforta.
- Trate de melhorar, ouviu? Ligo de novo amanhã. Se cuide!
E desliga com um beijo. Pode ser ilusão, mas a dor melhora um pouco. Um pouquito-pouquitito de nada, mas melhora. Afinal, carinho não mata os bichos, mas faz um bem...
O sonho, tinha-o desde menina. Faltava-lhe a força para carregar a fantasia. Cultivou-a com calma, ao longo dos anos em que se fez mulher. Adulta e livre. E naquele carnaval, surgiu vitoriosa, quebrando a tradição. Coração no ritmo dos chocalhos. Baque-virado. Sob o céu de Pernambuco. Riso nos olhos. Lança e coragem, nas mãos.
Márcia Maia
*O maracatu rural, ou maracatu de baque-virado, surgiu na zona da mata, no século dezenove e desde então, só homens nele desfilavam. Maria José Marques foi a primeira mulher a desfilar, entre os caboclos-de-lança, quebrando a tradição. É uma das mais belas manifestações da cultura pernambucana.
Abriu a janela. Trigésimo andar. O vento varreu os papéis mesa afora. Ligou o som. Rock pesado. Sepultura. Exultou! Papéis, quadros, tudo voava no escritório mais impessoal e caro da cidade. Próprio à sua posição de alto executivo. Maduro e rico. Dançou até a exaustão. E adormeceu. Com a mesma sensação que tinha na infância. Quando roubava fruta do quintal do vizinho. E beijava, escondido, a filha do jardineiro. Mas isso fora há tanto tempo, que já não lembrava mais.
Acordou com uma sensação aguda de vazio. Uma solidão súbita invadira a casa, possivelmente entre as duas e as três da madrugada, e a fitava comodamente sentada à beira da cama. Sentiu-se incomodada, violada em sua intimidade, embora fossem , ela e a solidão, de tão íntimas, quase irmãs. A solidão sorriu como se lesse o seu pensamento. E seguiu fitando-a, muda.
Ela nada disse. Fez que não a vira. Levantou-se, pôs o CD de sempre, escovou os dentes, abriu a porta da varanda e a janela da cozinha, e retornou ao quarto para ler o jornal, como fazia todos os dias ao acordar. Mas não conseguiu. A solidão se deitara do lado esquerdo da cama e parecia imiscuir-se nos seus olhos, olhando-a tanto de dentro para de fora como de fora para dentro.
Dobrou o jornal. Fechou os olhos. Não entendia o que lhe estava acontecendo. Seus dias eram tranqüilos, a vida corria em paz e leve. O amor, ou que nome dessem àquilo que viviam, resplendia recém-consagrado, reafirmado, de corpo e alma vivido, pleno. Por que agora essa invasão impressentida?
Foi então que lembrou do ninho pendurado no pinheiro. Há quase um mês estava ali, parcialmente desfeito. E não caía. Pela primeira vez o haviam visto, à luz da lua cheia, na noite do amor, prestes a despencar, a desfazer-se. Mas não. Seguia, cai-não-cai, oscilando ao vento, numa ode à efemeridade da vida. À insustentável leveza do ser. Contrariando o tudo que é sólido desmancha no ar.
Abriu os olhos. A seu lado a solidão ressonava. Devia ter sido longa, a madrugada de vigília. Trocou o CD e o trompete de Chet derramou almost blue na penumbra azulada dos lençóis. Descobriu que aos poucos, a sensação passava. E como o relógio marcasse ainda cinco e meia, adormeceu. Lado-a-lado à solidão. Apascentada.
Márcia Maia
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
Folhetim
Sexta-feira. Carnaval. Meio-dia e meia. Ao telefone, ele diz que tudo foi lindo e deve ser guardado como um pequeno tesouro. Para sempre. No seu coração. Dele. Que não suportaria sofrer de novo. Ela ri. Disfarça o nó na garganta. Conversa mais um pouco. E desliga. Com um beijo. Foram tantos, pensa, olhando a fantasia sobre a cama. E não sobreviveram a um único carnaval.
A dor entornava-se sobre portas e janelas, móveis e tapetes, copos, panelas e xícaras. Queimava lâmpadas. Subia pelos pés e pernas, dorso e pescoço, até a raiz dos cabelos. Saltava e recomeçava. O desespero rondava cada esquina. E os comprimidos luziam encerrados no frasco vermelho de cristal. Inacessíveis.
Vovó, o que é ano-novo? perguntou Letícia, do alto dos seus três anos e meio, às quinze pra meia noite. É o aniversário do ano, respondi. Ela me olhou com aquela cara de nunca-vi-ano-fazer-aniversário. Eu ri. Veja, disse, quando você tinha dois anos e fez aniversário ficou com quantos anos? E ela, atentíssima: três. E no próximo aniversário, vai fazer quantos anos? Quatro!, disse ela rindo. Então, no ano-novo, o ano que tinha 2007 vai fazer 2008, entendeu? E ela: entendi. Agora, por que não tem vela no bolo?